por Ruy Shiozawa

Aqui no GPTW, sempre procuramos promover a diversidade nas empresas. Um ótimo exemplo disso foi o destaque Mulher, realizado em um evento dia 8 de Março. Contudo, sabemos que o trabalho está longe de estar concluído.

Costumamos exaltar o Brasil por sua pluralidade cultural. Por aqui o convívio de pessoas de todas as tribos, cores e grupos é muito bonito na teoria, porém a realidade é bem menos agradável: o Brasil ainda é um país cheio de preconceitos – seja ele por motivos de gênero, etnia, orientação sexual, idade, deficiência ou qualquer outro que leva ao tratamento desigual de diferentes grupos. E esses preconceitos são particularmente amplificados no ambiente de trabalho. Nesse artigo vamos abordar os três primeiros grupos e mostrar como a teoria não está sendo aplicada na prática.

Vamos começar pela desigualdade de gêneros. Costumamos pregar a igualdade de oportunidades de emprego um dos principais pontos a serem atingidos. E, pelo menos no universo das Melhores Empresas para Trabalhar no país, estamos muito próximos da igualdade – se olharmos em um nível superficial. Contudo...

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Among the 135 Best Workplaces in Brazil (2015)

Já falamos sobre isso algumas vezes. Quanto mais alto na hierarquia das empresas, mais escassa se torna a participação das mulheres. E, aqui, ouvimos todos os tipos de desculpa para não ter mulheres na alta liderança: é alegado que elas estão menos dispostas à mobilidade, que podem se afastar por longos períodos de tempo por conta de gravidez, e até argumentos absurdos como mulheres transmitem menos credibilidade que homens para investidores que são, em sua grande maioria, (adivinhem?) homens.

E ainda temos a questão dos salários. Mesmo entre as empresas do destaque Mulher, elas ganham um salário cerca de 35% menor que eles. Tentativas de justificar esse fato vergonhoso também não faltam e, assim como as citadas acima, são produtos de uma sociedade desigual por definição e ignorância.

Falando em ignorância, já passou da hora de desmistificar um dos principais argumentos para a desigualdade de raças no trabalho: “existem menos pardos e negros nas lideranças das empresas porque trata-se de uma população mais pobre e que, portanto, tem menos acesso à educação”.

Em primeiro lugar, isso não é justificativa; é mais um ponto que mostra que há algo em nossa sociedade que precisa ser consertado imediatamente! E, para os que continuam negando a realidade, vamos aceitar esse argumento (inaceitável) por um minuto, só para mostrar que ainda assim, ele não se sustenta.

Segundo dados levantados pelo DIEESE, 11,8% da população negra que está trabalhando possui Ensino Superior Completo. Entre os não negros, o número pula para 23,4% - quase o dobro. Mais uma vez, olhando superficialmente, o argumento parece fazer sentido. Combine isso com dados da Previ (fundo de pensões do Banco do Brasil) que apontam que apenas 2% dos cargos de média e alta liderança nas 114 maiores empresas do Brasil são ocupados por pardos e negros.

Ou seja, existe basicamente o dobro de brancos graduados que negros no mercado, porém existem 49 vezes mais brancos em cargos de liderança. O engraçado é que a maioria das empresas vai afirmar ter programas de combate à discriminação e desenvolvimento profissional para funcionários de raça não caucasiana. Mas fica aqui o recado: não adianta ter programas e práticas que não funcionam na prática.

Além disso, considere dados da mesma pesquisa do DIEESE, que mostra que a diferença salarial entre brancos e negros na indústria e no comércio passa de pouco menos de 20% (a mais para os brancos, obviamente) entre funcionários sem o Ensino Fundamental para quase 40% entre funcionários com Ensino Superior.

E para finalizar o show de horrores: a empresa de recrutamento e seleção Elancers realizou uma pesquisa com recrutadores que revelou que 7% das empresas não contratariam um candidato homossexual em hipótese alguma, e 11% só contratariam se o candidato jamais pudesse chegar a um cargo de visibilidade, como executivo.

Ou seja, se você é homossexual e quer ter um emprego com perspectivas de crescimento, uma em cada cinco empresas do país não é para você. E não é só aqui no Brasil! A Universidade de Harvard conduziu um experimento em que enviou currículos praticamente idênticos para cerca de 1.700 recrutadores, com apenas uma pequena diferença: em metade desses currículos, também foi adicionado que o candidato teve experiência como tesoureiro do grupo LGBT da faculdade.

O resultado? Quatro vezes mais convites para uma entrevista entre os recrutadores que receberam o currículo sem a informação. E os problemas não param na contratação: a pesquisa LGBT Out Now mostrou que no Brasil apenas 3 entre 10 executivos gays falam abertamente sobre sua orientação sexual com colegas de trabalho. Sinal de que eles têm medo de sofrer consequências caso o seu “segredo” seja descoberto.

E isso impacta também no bolso das empresas: a mesma pesquisa mostra que entre funcionários homossexuais assumidos, 75% afirmam sentirem-se produtivos. Entre os não assumidos, o número cai para 46%. E o motivo é óbvio: fica difícil conseguir se dedicar completamente ao trabalho quando a maior parte do seu foco está voltado em precisar fingir ser alguém diferente do que se é.

E ainda nem falamos de transexuais, que poucas esperanças têm de sequer arrumar algum espaço no mercado de trabalho, ainda mais um trabalho decente com qualquer tipo de perspectiva. E isso tem consequências graves: segundo a ANTRA - Associação Nacional de Travestis e Transexuais, 90% de travestis e transexuais recorrem à prostituição como forma de se sustentar.

Então chega de falar que no Brasil não tem machismo. Ou racismo. Ou homofobia. Tem tudo isso, e em doses alarmantes – dentro e fora do ambiente de trabalho, pois tudo isso que citamos não existiria em uma sociedade livre de preconceitos. Chega de desculpas. O primeiro passo para solucionar um problema é admitir sua existência. Esse é o primeiro passo que deve ser tomado pelas empresas brasileiras – e pela sociedade como um todo.

Por isso, nós do GPTW, continuaremos a apoiar a diversidade nas empresas com ações como o GPTW Mulher. E, cada vez mais, olharemos com muito mais cuidado o que as empresas estão de fato fazendo para eliminar o preconceito do ambiente de trabalho.

Para as empresas prontas para aceitar o desafio, as inscrições para o próximo Ranking GPTW Mulher já estão abertas! Clique aqui e se inscreva. E fique ligado para novas ações pró-diversidade do Great Place to Work.